PESQUISA Data de Publicação: 19 out 2026 11:57 Data de Atualização: 19 out 2026 12:06
Em apenas um mês, um projeto de pesquisa do Câmpus Araranguá do IFSC já destinou cerca de 140 quilos de resíduos orgânicos à compostagem. A iniciativa investiga como diferentes condições interferem na transformação desses materiais em adubo, combinando experimentos, coleta de dados e análise matemática. Coordenado pela professora Bianca Sousa de Moraes, o projeto Educação ambiental e Matemática: uma proposta integrada para o manejo dos resíduos sólidos orgânicos conta com a colaboração dos professores Juliano da Silva de Souza e Marcelo Salmeron Figueredo.
A pesquisa recebe apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), por meio do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica para o Ensino Médio (Pibic-EM), e envolve duas estudantes bolsistas dos cursos técnicos integrados. Dos 140 quilos compostados no primeiro mês, aproximadamente 45 quilos foram levados por estudantes e servidores. O restante é proveniente do refeitório do câmpus, que prepara refeições para os alunos dos cursos técnicos integrados.
Da horta à pesquisa científica
O projeto nasceu de iniciativas anteriores relacionadas à sustentabilidade no Câmpus Araranguá. Em uma pesquisa desenvolvida com estudantes, Bianca investigou o histórico do manejo de resíduos sólidos no município e iniciou experiências de compostagem na instituição. Ao mesmo tempo, o câmpus ampliava as ações de arborização e cultivo de alimentos, com projetos como o Horta e o IFSC + Verde.
Com a publicação do edital do Pibic-EM, os professores identificaram a possibilidade de ampliar a compostagem e integrar as ações já realizadas. “Vimos uma boa oportunidade de dar um gás no processo de compostagem, com vistas ao aproveitamento dos resíduos orgânicos produzidos pelo câmpus e à produção de adubo para a horta”, explica Bianca. Diferentemente das experiências iniciais, realizadas esporadicamente e restritas aos resíduos do refeitório, o projeto atual mantém a compostagem semanal e inclui materiais trazidos de casa pela comunidade acadêmica.
Os resíduos orgânicos gerados na preparação das refeições são separados pelas cozinheiras do refeitório e armazenados em um tonel ao longo da semana. Às sextas-feiras, os professores envolvidos e as duas bolsistas realizam a compostagem do material acumulado. A cada duas semanas, estudantes e servidores também podem levar resíduos domésticos ao tonel disponibilizado na portaria do câmpus, conforme as datas divulgadas pela equipe. São aceitos cascas e restos de frutas, verduras e legumes, borra e filtros de café, cascas de ovos e sobras de alimentos.
O professor Marcelo Salmeron Figueredo observa que o volume de materiais trazidos pela comunidade acadêmica vem crescendo. "Dessa forma, penso que o projeto contribui para conscientização da separação e destinação adequada desses resíduos, que deixam de ser vistos como lixo”, diz.
A compostagem permite aproveitar materiais orgânicos que frequentemente são encaminhados aos aterros sanitários. No câmpus, o adubo produzido também pode contribuir para as iniciativas de horta e arborização.
Matemática para compreender o processo
A equipe investiga diferentes formas de compostagem para identificar quais condições favorecem o processo. Entre os cenários avaliados estão buracos no solo com e sem camadas de palha e leiras – estruturas que reúnem os materiais em compostagem – com diferentes proporções de resíduos orgânicos e palha, testando-se condições com e sem aeração. Ao longo dos dias, os pesquisadores medem parâmetros como pH, umidade, temperatura e luminosidade. Os resultados são registrados em tabelas e organizados em gráficos, permitindo comparar os diferentes ambientes experimentais.
É nesse trabalho que a matemática assume papel central. O professor Juliano da Silva de Souza explica que os dados reais permitem construir funções matemáticas para representar e compreender fenômenos relacionados à compostagem. Segundo ele, as informações coletadas podem ajudar a identificar relações matemáticas que representem aspectos como a produção de adubo e biofertilizante, o crescimento da população de microrganismos e as variações do pH ao longo do tempo.
"Podemos fazer estimativas e previsões acerca do processo, que, por sua vez, possibilitam o gerenciamento e planejamento de ações. Especificamente, neste projeto, vamos coletar os dados numéricos dos diferentes cenários, compará-los entre si e com dados de referências da literatura científica buscando encontrar padrões e indicar ações de manejo e controle para a melhoria do processo de compostagem no câmpus”, destaca.
De acordo com Juliano, o projeto foi pensado a partir do envolvimento com ações anteriores que também envolviam educação ambiental. Desde 2024, nas aulas das turmas do primeiro ano, os estudantes constroem composteiras em garrafas PET, coletam dados e utilizam as informações para encontrar funções matemáticas que representem o comportamento observado.
Apoio à pesquisa e formação científica
O financiamento do CNPq permite adquirir materiais e equipamentos necessários aos experimentos, como tonéis, instrumentos para medir luminosidade, pH, temperatura e umidade, além de equipamentos de proteção individual. O apoio também contempla as bolsas estudantis. As bolsistas participam das diferentes etapas da pesquisa, desde a coleta de dados até o tratamento e a análise dos resultados. O plano de trabalho inclui ainda a elaboração de conclusões e a produção e apresentação de trabalhos em eventos científicos.
Para Bianca, a experiência articula sustentabilidade, educação ambiental, pesquisa científica e participação coletiva. Além de dar uma destinação adequada aos resíduos orgânicos produzidos pelo refeitório, ela permite que as estudantes compreendam como a matemática pode ser utilizada para investigar problemas reais e contribuir para a busca de soluções. "O projeto aproxima a ciência da comunidade e demonstra que a sustentabilidade não depende apenas de grandes ações, mas também de mudanças de hábitos e do envolvimento coletivo”, avalia.