Projeto do IFSC recupera histórias de pessoas escravizadas nas antigas Armações de Garopaba e Imbituba

PESQUISA Data de Publicação: 23 set 2026 15:11 Data de Atualização: 23 set 2026 17:58

Durante muito tempo, as histórias das antigas Armações Baleeiras de Garopaba e Imbituba foram contadas principalmente a partir da caça das baleias, da produção de azeite e da importância econômica dessas estruturas no litoral catarinense. Um projeto de extensão do Câmpus Garopaba do IFSC está percorrendo esse passado por outro caminho: o das pessoas que fizeram parte dessa história, mas que ainda aparecem pouco nas narrativas sobre as duas cidades. 

Intitulado Em meio aos toucinhos e às caldeiras: Ações de valorização da História de pessoas escravizadas nas Armações de São Joaquim de Garopaba e de Imbituba, o projeto investiga a presença de africanos escravizados e libertos nesses territórios e procura compreender suas trajetórias, relações familiares, formas de resistência e contribuições para a formação das comunidades locais. A iniciativa reúne professores, estudantes e integrantes da comunidade externa em frentes de atuação que incluem encontros de leitura com rodas de conversa, pesquisa de documentos históricos, elaboração de roteiros inspirados no afro-turismo e desenvolvimento de uma plataforma digital. 

A proposta é coordenada pelo professor Nauber Gavski da Silva, com coordenação adjunta da professora Franciele Rocha de Oliveira. Participam ainda estudantes dos cursos técnicos integrados das áreas de Administração, Lazer e Informática, além de alunos de graduação em Gestão Ambiental e do curso técnico em Guia de Turismo Regional de Santa Catarina. A estudante Sabrina Duarte Rosa, bolsista do projeto, participou da concepção e da redação da proposta. 

Natural de Imbituba e formada em Ciências Biológicas, Sabrina estagiou no Museu da Baleia de Imbituba. Foi nesse período que passou a perceber uma lacuna nas narrativas sobre as antigas armações. “Naquela época, conheci a estudante Jheniffer dos Santos Ribeiro, do curso de Gestão Ambiental do Câmpus Garopaba, que chamou a minha atenção para o apagamento e a invisibilidade dos africanos escravizados das armações baleeiras da região de Imbituba e Garopaba”, conta Sabrina. 

Mais tarde, já estudante do IFSC, a questão ganhou novos contornos durante as aulas de História Brasileira e de Santa Catarina. As discussões levaram Sabrina e a professora Renata de Sousa Pimenta a desenvolverem o estudo Invisíveis ou ausentes: a população negra das Armações Baleeiras de Santa Catarina, apresentado no ano passado no Congresso Brasileiro de Pesquisadores(as) Negros(as) da Região Sul (Copene Sul). O trabalho, no entanto, não encerrou as perguntas. Ao contrário, apontou para outras fontes e narrativas ainda pouco exploradas. 

Foi a partir dessas inquietações e dos desdobramentos do estudo anterior que Sabrina passou a discutir com a professora Franciele Rocha de Oliveira novas possibilidades de pesquisa. Com a continuidade das investigações no componente curricular, foram incorporadas novas análises de documentos históricos e formuladas outras hipóteses.

Quem aparece – e quem ficou fora – dessa história 

As lacunas identificadas pela equipe vão além da ausência de referências à população negra nos materiais sobre as armações. Também faltam informações capazes de individualizar essas pessoas e acompanhar suas trajetórias ao longo do tempo. “A principal ausência está no reconhecimento da presença destas pessoas, nestes territórios, como atuantes em praticamente todos os processos de caça das baleias e no funcionamento interno das armações”, afirma Sabrina. 

A pesquisa pretende justamente avançar sobre aquilo que os relatos mais gerais não mostram. Nomes, vínculos familiares, origens e atividades realizadas podem ajudar a transformar uma presença muitas vezes tratada de forma genérica em histórias individuais. Para professora Franciele, essa mudança também exige questionar a maneira como as próprias Armações são apresentadas. Ela observa que materiais institucionais e turísticos ainda reproduzem, em muitos casos, uma narrativa centrada na perspectiva colonial. 

“Compreendemos que as Armações, em suas constituições, são, sobretudo, unidades produtivas escravistas, que tiveram a mão de obra de africanos e de seus descendentes como base. Entretanto, os territórios não apresentam o nome destas pessoas, nem suas trajetórias ou biografias. Reforçando o silenciamento sobre as experiências negras, que vão para além da escravização e da violência inerente à escravização”, afirma. 

O cotidiano dessas pessoas, segundo a professora, não estava restrito às atividades diretamente associadas à caça das baleias. A organização das unidades produtivas envolvia diferentes trabalhos e também relações sociais que deixaram marcas nos territórios. “Elas também constituíram formas de sobrevivência e resistência e formaram suas próprias famílias e comunidades. Em alguns casos, inclusive, casaram e formaram relações de parentesco complexas. Colaboraram com conhecimentos, saberes e fazeres que até hoje constituem a territorialidade e a cultura local”, acrescenta Franciele. 

É esse conjunto de experiências que o projeto pretende tornar mais visível. Em vez de tratar a população negra apenas como parte da mão de obra das armações, a equipe procura identificar pessoas, reconstruir trajetórias e compreender as relações que estabeleceram entre si e com os territórios. 

Da documentação às memórias das comunidades 

A pesquisa histórica é uma das principais frentes do projeto. A equipe analisa documentos dos séculos XVIII e XIX, entre eles registros paroquiais de batismo, casamento e óbito e documentos relacionados diretamente às Armações de Garopaba e Imbituba. A investigação também considera fontes como inventários, testamentos, processos criminais, cartas de alforria e jornais. 

A intenção é reunir essas informações em um banco de dados específico sobre africanos escravizados e libertos identificados nessas fontes. Para Sabrina, além de dar visibilidade a essas pessoas, o material poderá servir como ponto de partida para futuras pesquisas. “Ele poderá proporcionar o reconhecimento, a visibilidade da atuação e a presença de africanos escravizados ou libertos nas regiões estudadas. A criação de um banco de dados, sobre os escravizados das Armações Baleeiras de Garopaba e Imbituba, será realizada pela primeira vez”, afirma. 

O levantamento poderá ter também uma dimensão que ultrapassa o ambiente acadêmico. A equipe já identifica, entre os estudantes envolvidos no projeto, pessoas interessadas em encontrar registros de seus próprios ancestrais. 

Franciele cita o caso da estudante Ana Laura Pereira, cuja família pertence ao Quilombo da Aldeia, comunidade na qual o projeto pretende realizar um encontro de leitura. Para a professora, a possibilidade de reunir documentos dispersos pode criar novos caminhos para quem procura informações sobre seus antepassados. “Essa plataforma facilitaria o acesso ao reconhecimento destas pessoas, atendendo não só a comunidade científica, pesquisadores e demais interessados no tema, mas também às comunidades negras que buscam identificar registros de seus ancestrais africanos”, explica. 

Os documentos, contudo, não são suficientes para recuperar todas as dimensões dessas experiências. É por isso que o projeto também aposta na aproximação com lideranças negras, comunidades quilombolas, povos de terreiro e movimentos sociais. A equipe entende que memórias, conhecimentos e narrativas transmitidos pelas comunidades podem revelar aspectos que dificilmente aparecem em registros oficiais. O desafio está em colocar essas diferentes fontes em diálogo, sem tratar a documentação acadêmica como única forma legítima de produzir conhecimento sobre o passado. 

A primeira experiência ocorreu no Ilê Alaketu Obá Bi Lè Dé, em um encontro que aproximou a pesquisa das perspectivas de uma comunidade de terreiro. Franciele destaca a participação da Yalorixá Cris de Xangô, que compartilhou conhecimentos sobre a maneira como religiosos de matriz africana compreendem as baleias e seus resíduos orgânicos dentro de preceitos religiosos. 

A experiência também mostrou à equipe que a própria relação com as baleias pode ser observada a partir de outras referências culturais. “As baleias são também símbolos de ancestralidade e conexão para povos e comunidades de terreiros de matriz africana”, relata Franciele. 

Os próximos encontros previstos serão realizados em outubro e novembro. No dia 5 de outubro, no Museu da Baleia de Imbituba, participam a pesquisadora Mariane da Silva Coelho e a liderança do movimento negro de Imbituba Celia David da Silva. A discussão terá como referência o texto Memórias do Negro em Imbituba/SC: Narrativas e Silenciamentos, de Mariane da Silva Coelho e Tânia Mara Cruz. 

Em 23 de novembro, a convidada será a advogada Paula Daniela Batista Marcolino, que participa de pautas comunitárias e sociais. O texto escolhido para a discussão é Territórios quilombolas em Garopaba e Imbituba (SC): patrimônio histórico, paisagístico e história oral, de Juliani Brignol Walotek e Douglas Ladik Antunes. 

Recontar o passado para ampliar a memória do presente 

Franciele vê a iniciativa também como uma forma de devolver visibilidade a pessoas que permaneceram fora das narrativas predominantes sobre esses territórios. O projeto procura reconstruir essas histórias a partir de documentos, mas também da escuta de quem mantém vivas memórias e referências culturais relacionadas a elas. “Acredito que já estamos fazendo algo revolucionário! Mobilizamos diferentes grupos dispostos a rememorar a história de pessoas que, em geral, morreram sem imaginar que mais de 200 anos depois estaríamos lembrando suas existências, seus ofícios, suas famílias e suas culturas”, afirma. 

O símbolo escolhido para o projeto traduz essa proposta: uma cauda de baleia acompanhada do machado de Xangô, orixá associado à justiça nas religiões de matriz africana. A imagem reúne dois elementos presentes na pesquisa – as baleias, que marcaram a economia e a ocupação dos territórios, e uma referência cultural que remete às comunidades negras e às suas formas de compreender o mundo. 

O resultado esperado não é apenas acrescentar novos dados à história das Armações, mas ampliar as possibilidades de contar essa história, fazendo aparecer pessoas, famílias e experiências que permaneceram por muito tempo à margem dos registros mais conhecidos. “Um dos resultados mais importantes do projeto é promover a justiça social histórica, permitindo a identificação destas pessoas, o acesso à história e à informação, a escuta de comunidades negras”, conclui Franciele. 

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